Obrigado Vettel!

Já há muito tempo que não me sentava para escrever aqui no “meu menino”. Compromissos profissionais e o tempo algo escasso obrigaram a colocar a escrita neste espaço um pouco de lado. Continuamos a dizer as mesmas barbaridades ao mundo pelas ondas da rádio mas faz falta “soltar o verbo” por aqui. A ver se isto se ajeita e passamos a dar uma mãozinha ao Guedes aqui no blog.

 

Quem ouviu o programa desta semana na UFM e / ou no nosso podcast, terá reparado no tom de voz mais aceso quando o tema foi o incidente do GP do Canadá entre Sebastian Vettel e Lewis Hamilton. O caso já foi suficientemente esmiuçado e nem é esse o interesse principal desta linhas. O foco é mesmo Vettel.

O alemão que se tornou tetracampeão na Red Bull, foi o protagonista de uma era em que o domínio dos carros da equipa austríaca causou algum fastio… tal como qualquer outro domínio exacerbado. Vettel teve uma ascensão meteórica e foi o mais jovem campeão do mundo de sempre. Foi por isso fácil entrar logo no livro de ódios de estimação de alguns. Os grandes campeões são assim, ou se amam ou se odeiam.

Pessoalmente, nunca gostei muito de Vettel nessa altura. A minha “costela” McLaren assim o impedia e eu também sou daqueles que gosta de um bom campeão, mas que não ganhe muitas vezes seguidas. Nessa fase sempre considerei que Vettel eram um excelente piloto, mas que lhe faltava um bocadinho de unhas, sem comparássemos a outros artistas, como Hamilton ou Fernando Alonso. Continuo a achar o mesmo, mas o meu apreço por Vettel subiu muito, quase exponencialmente desde então.

É verdade que com o carro certo, Vettel é imbatível e muitas vezes o que ele fez na Red Bull é menosprezado. Ok, o rapaz tinha o melhor carro do grid, mas teve de adaptar o seu estilo de condução para tirar o máximo partido dele e do famoso “blown difuser”. Mark Webber, que não é manco nenhum, nunca foi tão competitivo quanto Vettel. Ok, Webber foi algumas vezes prejudicado por decisões da equipa, mas Daniel Ricciardo provou de forma clara que a Red Bull (e qualquer equipa) beneficia sempre o piloto em melhor forma. É também verdade que sob pressão, Vettel mostra falhas graves (o que aconteceu no Canadá) e que não gosta muito de improvisar. É no fundo uma mistura pouco convencional de características germânicas e latinas.

Mas o que eu gosto em Vettel é a sua postura. A forma como comunica, a forma como por vezes perde a cabeça e “parte a loiça toda”. Para alguns, as cenas no final do GP do Canadá foram deploráveis e desprestigiantes, mas para mim foi uma pedrada no charco. Vettel esqueceu o politicamente correcto, foi para a motorhome com vontade puxar o lustro ao vernáculo italiano, que por certo dominará. Passado dois minutos, lá vai ele para o pódio, porque apesar de tudo não é maldoso e tem respeito pelos adversários (e também podia ser ainda mais penalizado) mas ainda vai trocar as placas, numa espécie de “dedo do meio firme e hirto” para quem deu a penalização. Para alguns pode ter sido um circo desnecessário… Para mim foi o Grande Circo no seu esplendor: Uma luta fantástica, polémica e um piloto sem filtro.

Vettel disse no final que faz falta à F1 um discurso mais sincero, mais genuíno. Não podia concordar mais! Basta ver as conferências de imprensa. Juntem Vettel, Hamilton Ricciardo, Alonso e Raikkonen e temos os ingredientes certos para ter uma conferência entretida de 30 minutos. Juntem Grosjean, Kvyat, Stroll, e os miúdos e passado 5 minutos já estamos a bocejar.

A F1 é o reflexo da nossa sociedade… demasiado limpa, demasiado correcta, demasiado sem sabor. A F1 tem abdicado aos poucos dos discursos inflamados, dos pilotos com carácter forte e sem medo de dizer o que lhes vai na alma, abdicou das pit babes… no fundo tem abdicado de tudo o que a tornou especial. Vivemos num mundo em que somos pressionados a seguir horários impostos, tarefas impostas, onde somos obrigados a suavizar o discurso para não termos demasiados aborrecimentos.

A F1 tornou-se grande, enorme, porque tínhamos os “Macho Alfa” que diziam o que queriam e fazia o que queriam, que punham a vida em risco por um objectivo maior. No fundo o que todos nós gostávamos de fazer, mas que nem sempre podemos fazer. Na era do politicamente correcto, essa postura Alfa é quase censurada porque temos de tentar ao máximo não incomodar quem se ofende com um suspiro mais profundo, quando no fundo queremos é fazer como o Magnussen e usar um sonoro “chupa-mos” a quem nos aborrece a alma. A F1 dava-nos uma espécie de válvula de escape porque era genuína e isso tem-se diluído.

Não é so na F1 que acontece, é no desporto em geral. Os miúdos são formatados para usar o mesmo discurso asséptico, sem sal, que agrade a todos. Mas para chegar ao topo, todos eles tiveram de penar, todos eles tiveram de puxar pelo seu lado mais Alfa para vencer. Se lhes dermos liberdade talvez  possam mostrar isso no seu discurso. Hoje temos uma F1 que tenta agradar a todos e não agrada a ninguém.

Por isso é que atitudes como as de Vettel são, apesar de tudo, boas para a  F1. São sinceras, vêm do coração. É por isso que Ricciardo, à sua maneira, ganha cada vez mais fãs, porque não tem medo de dizer merda. Não é por acaso que Kimi Raikkonen tem tantos fãs. A F1 precisa de uma revolução nos regulamentos, mas também uma revolução na sua postura. A F1 tem de voltar a ser o Grande Circo e dar liberdade aos seus artistas. Liberta-los das amarras do politicamente correcto de deixá-los ser quem são, para o bem e para o mal. A F1 tornou-se grande graças a grandes Homens que nunca tiveram medo de enfrentar os adversários e de defender os seus ideais, nem que isso lhes custasse um preço mais elevado. É isso que a F1 precisa para se manter no topo… não é apenas a luta roda com roda, ou a tecnologia mais ou menos híbrida… é o factor humano. Isso sim faz a diferença. Vettel falou de forma apaixonada sobre a falta de genuinidade da F1 actual. À sua maneira ele tem-se mantido fiel a ele mesmo. Obrigado por isso. Precisamos de mais assim!

Fonte: Fábio Mendes – Chicane Motores

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